Quando o assunto é rede de contatos profissionais,
mais vale a qualidade do que a quantidadeQuantos amigos
você tem? Para muita gente, esta frase, bastante
ouvida principalmente entre os usuários do Orkut,
famoso site de relacionamentos, significa uma avaliação
de currículo. A culpa é da importância
que o network ganhou em época de tecnologia avançada.
E daí começam os problemas. Imagine o
chefão de uma multinacional. Todo mundo quer
entrar na rede de contatos dele. Mesmo quem tem um cargo
não tão poderoso percebe fácil
que não falta puxa-saco na fila, uma babação
que normalmente tem como finalidade um emprego ou uma
indicação para tal.
Falta uma etiqueta nessa história toda. Até
que ponto é falta de educação
se aproximar de alguém para fazer parte de
seu network? Vale a pena aumentar sua lista de contatos
diariamente? Como lidar com os interesseiros à
espreita?
“Quando você entra em uma companhia,
perde o seu sobrenome. É o fulano da empresa
tal. Se está desempregado, é o fulano
desempregado. Então você acaba ganhando
um rótulo, e esse network é perigoso
quando as pessoas começam a gerenciar em função
dele”, fala Marcelo Ferreira, presidente da
Adidas no Brasil.
A consultora Regina Silva, sóciadiretora do
instituto Gyraser, especializado em gestão
de carreira, reforça essa idéia. “Hoje,
todo mundo sabe que a maior parte das oportunidades
surge a partir do network. Só que as pessoas
confundem as coisas. Pensam: ‘quando eu precisar,
ligo e pronto’. Não é isso. Uma
boa rede profissional de contatos deve funcionar como
um processo contínuo de relacionamento. É
como uma amizade, e você não telefona
para um amigo só de vez em quando”, alerta.
Marcelo Ferreira que o diga. Por conta dessa diferença
entre quem é amigo e quem se faz de, ele propõe
que cada um divida sua rede em duas. “Tenho
um network com pessoas que começaram comigo,
há 20 anos. São pessoas que procuro
ouvir, ajudar e retribuir. É gente que sempre
esteve comigo, independentemente de onde eu estivesse.
A primeira parte de sua rede de contatos é
essa, que você terá por muito tempo.
A outra é a momentânea, que você
tem de tirar o máximo de proveito. É
uma relação fria, totalmente mecânica,
difere do cartão apenas porque é eletrônica.
Para gerar negócios, pode até ser produtiva,
mas para fazer amigos, para a questão social,
não me atingiu”, avalia o executivo.
Regina Silva diz que um network é feito para
que seja algo contínuo. “Você precisa
manter contato com as pessoas, nem que seja em ocasiões
especiais, como aniversário, Natal. Tem gente
que guarda 500 cartões, mas nunca entra em
contato. Essa rede precisa ser ativada. É necessário
criar vínculos”, ensina a consultora.
Ela afirma que, em relação a um nome
que esteja na lista de alguém, vale a pena
ligar, dizer onde conheceu, convidar para um café,
fazer com que o outro saiba quem está mantendo
contato. “Até na hora de tomar um cafezinho
no bar, se souber o nome do garçom ele vai
tratar você diferente”, orienta.
INCLUIR OU NÃO?
Se o Orkut ostenta a aura de principal site de relacionamentos,
tanto para a área profissional como para a
pessoal, há quem tire ao mesmo tempo proveito
e aborrecimento dele no lado comercial. É o
caso da publicitária Iris Freitas Duarte, diretora
de arte da IFD Comunicação. “Entrei
apenas para fazer contatos na minha área de
atuação. Postei meu portfólio
em várias comunidades e as pessoas foram chegando;
umas queriam dicas, outras buscavam saber mais sobre
o meu trabalho”, lembra.
Mas falta senso ético a muita gente, segundo
Iris. “O site está cheio de comunidades
do tipo ‘Pelo Amor de Deus, Quero um Trabalho’.
Além disso, há pessoas que ficam mandando
para outras um monte de coisas que fizeram, para provar
que são capazes de algo. Quem quer fazer um
network precisa saber se mostrar na medida certa para
não acabar se queimando por ser impertinente
demais”, opina.
Na questão da abordagem, Carla Affonso, diretora
geral da Endemol Globo, diz que não há
problema algum em ser franco com alguém. “No
entanto, deve-se sempre deixar claro qual é
a sua intenção e perguntar imediatamente
se não há problemas em abordar o assunto.
Da mesma maneira que você precisa de seu colega,
ele seguramente também precisará de
você”. Carla acredita que ninguém
deve entrar na lista de uma pessoa com a qual não
se sinta à vontade. “O network não
pode ser uma coisa falsa, artificial. Tem de ser feito
com naturalidade e sinceridade. A verdadeira rede
de contatos é uma construção
mútua de pessoas que se respeitam em termos
profissionais e pessoais”, completa a executiva.
Para Marcelo Ferreira, um bom network prima pela
qualidade, mais que pela quantidade. “Os headhunters
dizem que, atualmente, se você não tiver
um bom network, está morto. Depende. O bom
network é aquele em que você tem contatos,
e não aquele com nomes que simplesmente estão
na sua lista. É como colocar 3 mil páginas
de favoritos no seu computador. Se eu quiser fazer
um evento, por exemplo, é só comprar
um mailing. É a mesma coisa. É um network
de pessoas que estarão lá em um certo
momento”.
CURSO DE ETIQUETA
A consultora Regina Silva, do Instituto Gyraser, dá
dicas para ninguém queimar o filme enquanto
administra o network. Saiba, entre outras coisas,
como entrar na lista de alguém de forma educada,
e veja como identificar os interesseiros: Faça
um script sobre o que deseja conseguir com sua rede
de contatos; Quando alguém quiser ser seu
amigo, tente perceber se é uma pessoa que dará
continuidade, se só quer extrair ou se haverá
troca; Se haverá uma festa em determinado
mês, comece ou acione sua rede de contatos bem
antes, sem essa de ficar pedindo convite em cima da
hora; No mínimo, mande um cartão de
Natal ou aniversário para as pessoas, nem que
seja via e-mail. Pense naquele dentista que o atendeu
há anos e sempre lhe manda um cartão.
Quando o dente doer, é dele que você
vai lembrar primeiro; Lembre-se: rede de contato
é para ser usada, movimentada, e não
guardada como dinheiro debaixo do colchão.
Há mais maneiras de saber se a sua rede de
contatos poderá lhe servir bem no futuro, principalmente
se você perder o emprego e quiser que alguém
o indique para outro. “Network não é
lista telefônica. Um nome a mais por mês
está bom. Serão 12 por ano. É
o vínculo que fará com que o outro o
indique”, acrescenta Regina.
Oscar Guerra, diretor executivo do Instituto Trevisan,
passou por várias empresas de grande porte
antes de assumir o cargo na entidade educacional.
Com isso, construiu um network naturalmente. “Trabalhei
dez anos como diretor do Citibank. Hoje, conheço
gente nos principais bancos porque boa parte saiu
de lá”, conta. Mais tarde, dirigiu a
Varig. “Daí o leque abriu mais ainda.
Todo mundo é cliente de avião. Era artista,
político, pessoas de qualquer área que
se possa imaginar. Costumo dizer que poderia até
ter me candidatado a algum cargo político,
de tanta gente que conheci na época”.
Ele diz que o melhor de ter um network é a
possibilidade de conhecer homens e mulheres que podem
se tornar, depois, verdadeiros amigos. Oscar cita
Ayrton Senna, que conheceu profissionalmente na época
em que tinha cargo de diretor do extinto Nacional,
e o ídolo da Fórmula 1 era patrocinado
pelo banco.
Sempre foi algum amigo que levou Guerra para trabalhar
com ele ou o indicou para algum cargo. Esse é
o lado benéfico de um bom network, segundo
o executivo. Por outro, há quem realmente esteja
em uma rede só por razões comerciais.
“Às vezes, o cara até tem bastante
contato, mas, quando você perde o emprego e
liga, a primeira coisa que ele pergunta é ‘onde
você está agora?’. Se não
estiver em lugar nenhum, a conversa tende a esfriar”.